A ZONA EXCLUSIVA DE PESCA ARTESANAL: UMA INICIATIVA COMUNITÁRIA PARA O CUIDADO COM A MEGAFAUNA MARINHA E A SOBERANIA ALIMENTAR.
A Zona Exclusiva de Pesca Artesanal (ZEPA), localizada nos municípios de Juradó e Bahía Solano, em Chocó, Colômbia, foi criada para proteger os recursos pesqueiros e a biodiversidade marinha, priorizando a pesca artesanal em detrimento da pesca industrial. Essa iniciativa surgiu em resposta à pesca excessiva e ao impacto negativo da pesca industrial, que afetou os meios de subsistência das comunidades locais e os ecossistemas marinhos. Ao promover práticas sustentáveis, como o uso de equipamentos de pesca mais seletivos, o ZEPA facilitou a recuperação de espécies e a proteção de habitats cruciais para a megafauna marinha, contribuindo para atividades essenciais como ecolocalização, alimentação e reprodução dessas espécies. Além de conservar a biodiversidade, fortaleceu as economias locais ao garantir a disponibilidade de recursos pesqueiros para a pesca artesanal. O ZEPA é um exemplo de como o gerenciamento comunitário e a proteção das tradições de pesca podem levar à conservação do ecossistema e à melhoria da qualidade de vida das comunidades.
Contexto
Desafios enfrentados
O ZEPA combate a perda de biodiversidade proibindo a pesca industrial e promovendo práticas seletivas que reduzem a captura acessória e a pesca fantasma. Essas medidas protegem os habitats marinhos, permitindo que os Blue Five se alimentem e se reproduzam em condições ideais. Além disso, o monitoramento colaborativo reduz o impacto do tráfego marítimo nos ecossistemas.
Diante do conflito de recursos de pesca excessiva, a ZEPA promove a pesca artesanal sustentável, garantindo aos pescadores locais acesso exclusivo e equitativo aos recursos marinhos. Isso protege seus meios de subsistência em face da concorrência industrial e melhora sua qualidade de vida com rendas mais estáveis.
Em Chocó, na Colômbia, onde a pobreza exacerba a vulnerabilidade da pesca, o ZEPA fortalece a soberania alimentar ao priorizar a pesca artesanal. Isso garante o acesso contínuo aos recursos marinhos, preserva as dietas tradicionais e fortalece a segurança alimentar sem afetar os ecossistemas.
Localização
Processar
Resumo do processo
A liderança local e a representação da comunidade fortalecem os direitos coletivos de acordo com a Lei 70 e integram as necessidades da comunidade aos regulamentos. O acompanhamento jurídico proporciona solidez legal e validação perante diversas partes interessadas. A assistência técnica e o monitoramento científico apoiam as decisões de conservação. A promoção da pesca artesanal e a exclusão da pesca industrial protegem os recursos marinhos e reduzem os impactos. A coordenação interinstitucional com a AUNAP, a CODECHOCÓ, a Marinha Nacional e os governos locais garante um gerenciamento coerente. Essa abordagem integrada ajudou a superar os desafios na consolidação do ZEPA, beneficiando tanto as comunidades quanto a biodiversidade.
- Liderança e representação da comunidade: Liderada pelo GIC-PA, protege os direitos coletivos e os meios de subsistência tradicionais por meio de regulamentações enquadradas na Lei 70.
- Acompanhamento jurídico: Garante o alinhamento regulatório com as leis nacionais e fortalece a validação institucional.
- Assistência técnica e monitoramento: Fornece dados importantes sobre a biodiversidade e a dinâmica da pesca para a tomada de decisões.
- Pesca artesanal sustentável: prioriza as comunidades locais e promove técnicas sustentáveis para reduzir a captura acessória.
- Coordenação interinstitucional: A ação conjunta entre os principais órgãos garante o gerenciamento sustentável dos recursos.
Blocos de construção
Processos de liderança local alavancados por esquemas de governança local
O processo de liderança local começou entre 1997 e 1998, quando um grupo de pescadores artesanais identificou um conflito crescente com a pesca industrial que afetava suas práticas e territórios. O ponto mais crítico do conflito ocorreu entre 2002 e 2005, quando a indústria intensificou sua presença, gerando perda de equipamentos e maior pressão sobre os recursos. Isso levou a comunidade a se organizar para representar seus interesses e buscar soluções junto ao governo. Alavancados por esquemas de governança local, esses líderes puderam se apoiar mutuamente para avançar no processo de estabelecimento da ZEPA.
Fatores facilitadores
A existência e o apoio de estruturas consolidadas da sociedade civil, como o Grupo Interinstitucional e Comunitário de Pesca Artesanal, que contribuiu para representar as iniciativas comunitárias e os interesses das comunidades pesqueiras.
Lição aprendida
É essencial que os processos de liderança permaneçam organizados e com objetivos claros para continuar defendendo a ZEPA e avançar em maiores garantias para sua proteção.
Acompanhamento jurídico e consolidação da estrutura jurídica que apoia a figura
O acompanhamento jurídico teve como objetivo garantir uma defesa justa dos direitos dos pescadores que estavam sendo violados, bem como promover a extensão da figura da ZEPA. Graças a esse apoio, o ajuizamento da ação judicial foi iniciado em 2012, levando a uma sentença favorável em 2019 e, posteriormente, a uma decisão final em segunda instância em 2020.
Fatores facilitadores
O apoio de organizações da sociedade civil com experiência jurídica e capacidade de exigir os direitos das comunidades por meio de canais legais.
Lição aprendida
O apoio jurídico deve ser acompanhado de uma relação de confiança com as comunidades, e tudo o que for proposto na estrutura jurídica deve ser discutido e aprovado pelas comunidades.
Assistência técnica e monitoramento científico com foco na pesca artesanal
Várias organizações e pesquisadores realizaram trabalhos de monitoramento com foco na pesca artesanal, gerando informações valiosas que destacam a importância dessa área. Esses dados, complementados pela assistência técnica, serviram como base fundamental para o estabelecimento e a manutenção do ZEPA.
Fatores facilitadores
O apoio de organizações da sociedade civil que atuam na área e de entidades públicas que foram responsáveis pela realização de estudos e geração de informações técnicas.
Lição aprendida
A assistência técnica e o monitoramento científico exigem diferentes tipos de recursos que nem sempre estão disponíveis, razão pela qual devem ser identificadas rotas de ação para obter esses recursos.
Promover a pesca artesanal com boas práticas e proibir a pesca industrial
A pesca industrial causa sérios impactos, como a destruição da cadeia alimentar marinha - especialmente na captura de espécies importantes, como o camarão - e o uso de equipamentos de pesca que afetam golfinhos, tartarugas, tubarões e até baleias, que sofrem lesões ou estresse devido a ruídos e golpes. O objetivo da proibição da pesca industrial foi reduzir esses impactos. Além disso, promove-se a pesca artesanal responsável, evitando alterar o equilíbrio ecológico e utilizando métodos mais sustentáveis, como o uso de anzóis curvos que protegem as espécies vulneráveis, impedindo que sejam facilmente fisgadas. Sua pesca se baseia em técnicas seletivas, como a pesca com linha de mão ou fiada, que conserva as espécies e garante uma pescaria viável a longo prazo.
Fatores facilitadores
A existência de regulamentos específicos para regulamentar a ZEPA e estabelecer proibições, juntamente com a obrigação de que esses regulamentos sejam respeitados e aceitos pelas diferentes partes interessadas.
Lição aprendida
Para a implementação adequada da ZEPA, é necessário trabalhar com os atores encarregados dos processos de vigilância e controle para que as proibições estabelecidas sejam realmente respeitadas.
Coordenação interinstitucional para o gerenciamento da ZEPA
O objetivo da articulação interinstitucional é envolver todos os atores com competências relevantes para coordenar ações que permitam o gerenciamento eficaz da ZEPA e o enfrentamento dos impactos da pesca industrial na área. A criação da Mesa Redonda Interinstitucional Ampliada possibilitou esse gerenciamento eficaz.
Fatores facilitadores
A existência de uma decisão judicial determinando a criação de uma Mesa Redonda Interinstitucional Expandida que reúna as entidades competentes, comunidades e organizações aliadas.
Lição aprendida
Os processos de articulação são complexos porque convergem diferentes interesses, o que exige abertura para o diálogo, constância das comunidades, planejamento adequado dos espaços, entre outros fatores. São processos de longo prazo que não geram resultados imediatos.
Impactos
O ZEPA, embora não seja uma Área Marinha Protegida e esteja focado no gerenciamento da pesca, demonstrou benefícios claros para a conservação dos Blue Five. Medidas como a proibição da pesca industrial e a promoção de práticas artesanais sustentáveis contribuem para a proteção dessas espécies e, ao mesmo tempo, mantêm os recursos e a segurança alimentar.
Um dos principais impactos é a redução do ruído subaquático devido ao menor tráfego de embarcações industriais, diminuindo a interferência acústica que afeta a comunicação e o comportamento das baleias jubarte. A captura acessória também diminuiu devido à limitação do uso de redes de emalhar, beneficiando tubarões e tartarugas (Corporación PROCASUR, 2015). A exclusão da pesca industrial protege áreas críticas para alimentação e reprodução de golfinhos, arraias-manta e tubarões, garantindo seus ciclos biológicos (Corporación PROCASUR, 2015).
A ZEPA oferece corredores seguros para a sobrevivência dos Blue Five, fortalecendo a conexão entre a conservação e a tradição pesqueira. Os pescadores locais adotaram práticas sustentáveis e participam do monitoramento da biodiversidade, integrando a conservação ao seu trabalho.
Por fim, a ZEPA favoreceu a recuperação de espécies importantes para a segurança alimentar e comercial. Invemar (2019) documentou um aumento na abundância relativa de recursos demersais. A redução da pressão da pesca industrial permitiu a recuperação gradual das populações de peixes, refletida na melhoria das capturas artesanais.
Beneficiários
O ZEPA beneficia os pescadores artesanais, as comunidades locais, o turismo natural e os ecossistemas ao proteger os recursos, melhorar os meios de subsistência e conservar a biodiversidade marinha.
Estrutura Global de Biodiversidade (GBF)
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
História
A história dos pescadores da ZEPA
Vinte ou trinta anos atrás, ser um pescador artesanal não era motivo de orgulho. Se você tivesse sorte, um pescador que passasse 20 dias no mar não conseguiria nem mesmo ganhar um salário mínimo por mês. A pesca artesanal, que havia sido a base econômica de muitas comunidades costeiras, não era mais suficiente nem mesmo para viver. Foi nesse contexto que a ZEPA nasceu, como resposta a uma dura realidade: o mar já não era suficiente, e era necessário lutar não apenas por recursos, mas pela própria vida, pela dignidade, para evitar que as crianças fossem para a guerra ou para o tráfico de drogas.
O início foi difícil. Ninguém acreditava que isso pudesse ser mudado. Muitos pescadores relutavam em trocar suas redes porque, mesmo pegando peixes pequenos, era a única coisa que lhes restava para sobreviver. Mas, pouco a pouco, movidos pela necessidade e pela convicção de que um futuro diferente era possível, eles começaram a se organizar e a fazer parte do processo. Entre 2002 e 2008, os anos mais difíceis, eles enfrentaram a pobreza, a exclusão e até mesmo a violência. Alguns líderes foram assassinados, mas outros resistiram, impulsionados pela força coletiva.
Ao longo dos anos, o processo foi transformador. Eles trocaram as redes por anzóis curvos para proteger as tartarugas e os tubarões. Deixaram para trás práticas prejudiciais e adotaram a pesca sustentável e seletiva. O resultado é visível: hoje um pescador artesanal pode ganhar até três salários mínimos, seus filhos vão para a universidade e andam de cabeça erguida. O peixe que eles pescam é considerado o melhor e mais fresco do país, e o respeito pelo seu ofício foi recuperado.
Essa história não tem um único protagonista. É a história de todos os pescadores artesanais que resistiram, dos que ainda estão vivos e dos que não estão mais aqui. A ZEPA não apenas recuperou o mar; ela devolveu a uma comunidade seu orgulho e sua dignidade.
Esta boa prática é apresentada em memória dos líderes comunitários, como Euclides "Clides" Valois, que representaram seu povo com coragem.